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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Documentário: Amapô



Amapô


Documentário | De Kiko Goifman | 2008 | 12 min

Uma reflexão audiovisual urgente na luta pelos direitos humanos. Um depoimento emocionado sobre violência contra homossexuais e travestis no Brasil.

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Amapô


Gênero Documentário


Diretor Kiko Goifman


Ano 2008


Duração 12 min


Cor Colorido


Bitola HDV


País Brasil



Argumento

Este curta faz parte do projeto Marco Universal. Através de uma história de vida o filme trata de questões relacionadas aos direitos humanos, como o direito à diferença. A vida da personagem é apresentada a partir de outros, a alteridade como lógica. Os espectadores completam os sentidos e aos poucos percebem que se trata de um homossexual que, ainda na adolescência, virou travesti. "Amapoa" é um termo que vem do Iorubá e transformou-se em uma gíria de travestis para falar de mulher. O filme traz um desfecho brutal, revelando que o personagem sofreu uma forte violência. Homofobia. A abordagem leva à identificação com a personagem e permite reflexões sobre a intolerância da sociedade atual.


Ficha Técnica


Produção Jurandir Muller Roteiro Kiko Goifman, Claudia Priscilla Som Patrício Salgado Direção de produção Claudia Priscilla, Cristina Alves Assistente de Produção Cláudio Mello, Handerson Inácio Argumento Kiko Goifman, Marcelo Caetano Pesquisa Claudia Priscilla, Marcelo Caetano Direção de Fotografia Pedro Marques Tratamento de Áudio Trilha Original Realização PaleoTV Montagem Patrício Salgado Trilha Sonora DJ Patroniq Entrevistados Bianca di Capri, Fábio Souza, Aline Cristina de Souza, Dênia Amparo Gomes, Josélia B. de Andrade Santos, Leonardo A. de Moraes Franco, Maíra Thaís Teixeira de Souza, Maria Helena A. de Souza Pinto, Maria Izabel A. de Moraes Franco, Rafaela Alves de Moraes Franco, Suelen Fernanda de Moraes Franco, Vera Oliveira da Silva Produção de Set Marcelo Caetano Produção de Finalização Giovana Saad Motorista Sérgio Zavanelli Créditos Luciano Godói Curadoria Carla Esmeralda Assistência de Curadoria Alice Gomes


Festivais


Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul 2008

Dentro de mim mora um anjo

04/09/2008 17:29

Dentro de mim mora um anjo

Ele é pai, marido e homem de negócios. Debaixo da camisa, esconde seios e o desejo irrefreável de vestir-se de mulher. Como entender o universo ambíguo de um “crossdresser”?

Ivan Martins (texto) e Ricardo Corrêa (fotos)

Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Que tem as unhas pintadas
Que passa horas a fio
No espelho do toucador

Trecho da música de Suely Costa e Cacazo

RICARDO CORRÊA
IDENTIDADE SECRETA
Márcia se exibe, mas esconde sob a máscara o rosto de Márcio. Tem sido assim desde os 4 anos de idade

Por qualquer ângulo que se olhe, o advogado Márcio é um homem de sorte. Tem uma mulher linda, filhas amorosas, saúde e boa aparência. Aos 45 anos, por força do próprio trabalho, é dono de um sólido patrimônio. Seus negócios lhe asseguram o que se costuma chamar de independência financeira. Márcio trabalha no escritório que montou em casa, viaja quando deseja e pode dar-se ao luxo de passar uma tarde inteira, no meio da semana, fazendo a lição de casa com a filha mais velha, de 12 anos. Tem uma vida tranqüila, invejável mesmo, exceto por aquilo que ele chama de “meu problema”. Duas vezes por semana, Márcio sai do apartamento onde mora e vai para outro, no centro velho de São Paulo, onde se veste, dos pés à cabeça, das sandálias de salto 12 à longa cabeleira castanha, como mulher.

Com quase 1,90 metro de altura, 90 quilos e ombros de remador, a figura feminina que ele compõe nessas ocasiões não é muito delicada. Mas isso não faz diferença. Márcio é “crossdresser”, palavra que designa um grupo de homens que sofrem a compulsão de trajar-se e portar-se como mulher. “Montado”, quer dizer, vestido de mulher, Márcio transforma-se em Márcia. E parece perfeitamente feliz. Na pele dela, de minissaia e blusa justinha, pode passar a noite no computador, exibindo-se pela câmera web em sites de encontros. Ou pode sair e jantar fora com amigos crossdressers como ele. Em ocasiões mais raras, tem encontros sexuais com homens. Essa é sua vida secreta, de que apenas sua mulher e algumas poucas pessoas têm conhecimento.

Numa enorme prova de confiança, Márcio permitiu que eu acompanhasse seu cotidiano durante três semanas. Abriu as portas de suas duas casas, me apresentou sua mulher, mostrou-me retratos do casamento e fotos das filhas. Fui com ele a um encontro de trabalho, conheci o grupo de que ele participa – o Brazilian Crossdresser Club, ou BCC – e conversei, autorizado por ele, com um dos psicólogos com quem se tratou. O resultado dessa convivência está exposto a seguir, com mudanças e omissões que permitem proteger a identidade de Márcio e de sua família. Foi uma exigência dele e da mulher, e faz sentido. Em setembro de 2000, a revista Marie Claire publicou a foto de um casal que vivia de forma semelhante. Apesar de escondida por um leque, a mulher foi reconhecida. Seu marido, exposto, foi demitido da multinacional em que trabalhava. Márcio não pode ser demitido porque é patrão, mas tem muito a perder. “Minha intimidade com meu marido está perfeitamente resolvida”, diz Priscilla, de 27 anos, casada com Márcio desde 2003. “Meu único medo é a exposição e o escândalo. As pessoas não entendem. Tratariam a ele como doente e a mim como louca ou oportunista. Isso atrapalharia um relacionamento que é muito bom.”

Márcio e Priscilla vivem protegidos por uma redoma de segredo e, dentro dela, levam uma vida que não é fácil nem simples. Há dois anos, desde que começou a tomar hormônios, Márcio não pode mais ir à praia ou partilhar a piscina dos amigos. Seus mamilos cresceram e se transformaram em seios, que ele torna ainda mais femininos com a marca de biquíni do bronzeamento artificial. A cintura grossa de esportista foi afinada com lipoescultura. As nádegas, arredondadas por um implante. Pêlos no rosto já não há. Assim como as axilas, as faces sofreram depilação a laser, permanente. Cabelos compridos e lisos, sobrancelhas delineadas e as unhas longas e tratadas completam o personagem. Na maior parte do tempo, quando não está travestido, Márcio usa faixas ou coletes cirúrgicos sob a camisa folgada para esconder os seios. Isso tem de ser feito mesmo em casa, por causa dos empregados.

Na manhã em que fui trabalhar com ele, Márcio vestia uma camiseta e uma jaqueta de couro. Não se percebia nada. Os cabelos, amarrados em rabo-de-cavalo, não chamam a atenção, assim como o brinco. Há muita gente assim nas ruas de São Paulo. O que salta aos olhos é o formato das sobrancelhas e as unhas longas. A advogada com quem ele formalizou a assinatura de um contrato pareceu nada notar. Ou foi discreta. Márcio diz que nas raras ocasiões em que tem de ir ao Fórum, uma ou duas vezes por ano, sua aparência chama a atenção, mas juízes e colegas sabem que a discriminação é ilegal. Limitam-se a olhar discretamente. Ainda assim, ele prefere resolver quase tudo sem sair de casa, por telefone ou internet. Delega a outros advogados a administração diária de seus três negócios. Coisas que outras pessoas fazem normalmente, como ir à academia, estão proibidas para ele, por causa das formas femininas. “Eu teria de usar um top”, diz ele. E acrescenta, com um traço de melancolia: “Não recomendo hormônios para ninguém. O custo pessoal é muito alto”.

RICARDO CORRÊA
VIDA DUPLA
Duas vezes por semana, o empresário de 1,90 metro se transforma em mulher e pode terminar a noite com um homem

Márcio diz que começou a tomar pílulas anticoncepcionais aos 14 anos. Queria uma pele mais feminina, menos pêlos, talvez um pouco de quadris e seios. Foi descoberto pelo pai – e mandado a um psicólogo. Parou por um tempo, mas a pulsão era forte e retornou. Desde pequeno ele se vestia de menina. Adolescente, pôs um cofre no quarto onde guardava seus pertences de mulher: sapatos, vestidos, meias... Márcio afirma que não foi um garoto afeminado, ao contrário. Diz que se destacava nos esportes, chamava a atenção das meninas, participava com sucesso de atividades de grupo. Lutou jiu-jítsu e capoeira e, mais de uma vez, saiu no braço com os colegas da escola de elite na qual estudava, em São Paulo. Esse lado macho convivia, na clandestinidade, com as sessões privadas de travestismo. “Eu me sentia diferente, sabia que era diferente, mas ninguém notava”, afirma. Esse relato confere perfeitamente com a descrição da psicanalista brasileira que mais entende de crossdressers, a paulistana Eliane Kogut. Ela acompanhou os integrantes do BCC por sete anos. Vários deles foram pacientes em seu consultório. Eliane defendeu, em 2006, uma tese de doutorado na PUC de São Paulo sobre esse grupo social. Na tese, diz que eles começam a se vestir de menina por volta dos 4 anos e que essa compulsão irrefreável – e inexplicável – os acompanha pelo resto da vida. Sem prejuízo, diz ela, da masculinidade. Os crossdressers, também chamados CDs, não foram meninos delicados nem são homens afeminados. Namoram, casam, têm filhos e sofrem com o desejo de se vestir de mulher. “Antes da internet a vida deles era um inferno”, afirma Eliane. “Viviam isolados, cada um deles sentindo-se uma aberração”.

RICARDO CORRÊA
DE BOCA PINTADA
Márcia fica feliz no toucador, mas a aparência feminina é um problema social para Márcio

O senso comum sugere que esses homens são homossexuais reprimidos. Eliane afirma que o senso comum está errado. “Não há registro, na literatura médica ou na minha experiência, de crossdresser que tenha se revelado homossexual”, diz ela. O caso de Márcio é exemplar. Quando está de sapo – isto é, vestido como homem na gíria dos crossdressers –, ele não se distingue, pelos modos, de um sujeito qualquer de sua classe social. Talvez seja até um pouco mais assertivo que a média. Fala alto, coloca-se com firmeza, não há sinal de maneirismos em sua linguagem corporal. No trato com a mulher, tem uma postura de macho dominante – fala muito, rouba a cena, às vezes “explica” os sentimentos da parceira. Nada ofensivo ou grosseiro, mas a velha patronagem masculina está lá. Antes de conhecer Priscilla, ele teve dois casamentos e uma fieira de namoradas. Jovem, bonito, bem-sucedido, diz que transitava num universo de festas freqüentado por modelos, artistas e filhas de empresários. Como qualquer homem de meia-idade, adora exibir conquistas passadas. “Eu estava procurando”, afirma, enquanto segura a mão da mulher e a olha de um jeito carinhoso. Toda vez que se envolvia com uma garota, diz Márcio, tentava descobrir os sentimentos dela sobre práticas de sexo menos convencionais. A maioria não passava no teste. Eram conservadoras e, como tais, descartadas. Nas duas vezes anteriores em que se casou, as mulheres sabiam sobre Márcia, sua persona feminina. Era uma precondição. Com Priscilla, foi diferente.

Mais que tolerar, ela tornou-se cúmplice. Embora 18 anos mais nova, tinha experiência sexual e – nas palavras dela – “vontade de fazer coisas diferentes”. “Na primeira vez em que saímos, ela me disse que tinha a fantasia de vestir-se de homem com um homem vestido de mulher”, diz Márcio. Segundo Priscilla, era apenas uma brincadeira. Soou como presságio aos ouvidos do futuro marido. Namoraram, noivaram de aliança no dedo e casaram-se rapidamente, com todos os festejos e formalidades: o garanhão que se vestia de mulher às escondidas e a mocinha espevitada com rosto de Mirian Rios. No fim de maio, durante as festas que antecederam a Parada Gay de São Paulo, Márcia e Priscilla foram juntas ao The Week, conhecida balada gay de São Paulo. “Ela estava deslumbrante. Eu estava com uma saia curtíssima, mas ninguém nos deu bola”, diz Márcio.

O objeto do desejo dos crossdressers é a mulher
que eles constroem, não a outra pessoa

Há uma chance real de que isso dê certo? É possível que um homem que gosta de se sentir mulher e uma garota de gosto sexual apimentado formem um casal estável? Se depender da opinião dos psicólogos, sim. “Essas pessoas podem ser até mais felizes”, diz Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexologia. “Elas têm coragem de fazer coisas que outros não têm coragem de fazer. Isso une e dá sentido a sua vida.” Do ponto de vista dos psicólogos, todo casamento é uma espécie de arranjo existencial mais ou menos precário e não existe um deles que seja igual ao outro. O arranjo de Márcio e Priscilla é de um tipo raro. O tempo de sua duração e a intensa ligação entre os parceiros sugerem que se trata de algo sólido. “Se as pessoas não estão vinculadas, esse tipo de união acaba em dois tempos”, diz Rodrigues. Ele já recebeu em seu consultório, no bairro de Perdizes, vários casais desse tipo. Diz que, tipicamente, a conversa começa com o homem dizendo a ele: “Doutor, explica para a minha mulher que não tem nada de errado comigo”. Claro que não é tão simples. Mas as pessoas, quando se querem e se entendem, costumam arrumar um jeito de organizar a vida. “Não é o sexo que mantém os casamentos. É o cotidiano, é a cumplicidade”, diz Rodrigues.

RICARDO CORRÊA
AUTOIMAGEM
Márcia refletida no espelho de teto de seu quarto. Se a persona feminina é aceita pela família, a angústia diminui

Sexo, porém, é uma grande questão. Márcio não se furta a discuti-la. Diz que sua relação com a mulher é “perfeitamente normal”, embora haja consenso de que os hormônios femininos que ele toma (progesterona e estrogênio) derrubam a libido. “Eu transava todos os dias. Agora, com os hormônios e com o convívio, a freqüência baixou para um ou dois dias por semana”, afirma. Num casamento de cinco anos, parece perfeitamente normal. Mas a estatística não diz tudo. É por isso que eu sinto intensa curiosidade diante de Priscilla tão logo somos apresentados. Ela tampouco recusa a conversa sobre sexo, embora seja mesquinha nos detalhes. Vestida como a universitária que era até o ano passado, de tênis, jeans e blusa branca, prende os cabelos e acende um cigarro antes de fixar os olhos castanhos em mim. “A Márcia não piorou minha vida sexual”, afirma.

Estamos na sala de estar da garçonnière de seu marido, que ela ajudou a decorar. Ao nosso redor estão sete homens de idades variadas, vestidos de mulher. Tratam-se por Kelly, Elisabeta, Márcia... O marido de Priscilla é um deles. Priscilla conta que ficou chocada quando o viu “montado” pela primeira vez, mas acabou se acostumando – embora, ainda hoje, se incomode com os trejeitos femininos de Márcia. “É chato, mas todo mundo tem defeitos”, diz ela. Sim, mas poucos homens depilam as sobrancelhas e fazem crescer seios. “Não me incomoda”, afirma Priscilla. “A aparência dele foi mudando aos poucos. Só percebo quando olho as fotografias”. Com o perdão da intrusão, a vida sexual do casal não foi destruída pelas formas femininas dele? “Não”, ela responde. “O desejo não vem necessariamente do corpo. Depois de um tempo de casamento, a vida sexual muda muito, mesmo que o corpo não mude.” Pode ser apenas uma racionalização, mas Priscilla a sustenta com convicção. Na tarde em que conversei com os dois na casa deles, dias depois, Márcio gabava-se de que a noite anterior do casal tinha sido “espetacular”. Ela limitou-se a olhá-lo de lado, em silêncio desaprovador, como as mulheres fazem com freqüência diante das gabolices sexuais dos maridos. Era uma cena de casamento perfeitamente corriqueira, até na banalidade.

Os psicólogos dizem que as mulheres de crossdressers têm em comum o pavor de que seus maridos se revelem homossexuais. Priscilla diz que não é seu caso. Mesmo que Márcio saia com homens de vez em quando, ela diz “ter certeza” de que ele gosta de mulher. A tese de doutorado de Eliane Kogut propõe uma abordagem diferente desse assunto. Diz que o erotismo dos crossdressers – aquilo que dispara e sustenta a excitação – é voltado para eles mesmos, não para outros homens ou mulheres. Quando fazem sexo com uma mulher, excitam-se ao se colocar mentalmente no lugar delas. Se estiverem com homens, a excitação sexual vem da confirmação de sua identidade feminina. “O objeto final do desejo deles é a mulher que são capazes de montar”, diz Eliane. “É um erotismo autocentrado.” Há outro argumento robusto contra a tese da homossexualidade reprimida: se o sujeito deseja ocultar desejos homoeróticos, seria improvável fazê-lo vestido de mulher, atraindo ainda mais atenção para sua feminilidade.

Quando não está vestido de mulher, ele usa uma faixa para ocultar seus seios

No caso de Márcio e Priscilla, o desejo, como quer que ele se manifeste, mistura-se aos cuidados mútuos. Quando ele sai para um encontro com outro homem, ou mesmo quando vai entrevistar um candidato a sócio do BCC, o casal combina códigos de segurança ao celular. “Há muito homófobo por aí”, diz ele. Da mesma forma, quando ela sai para encontros com outros homens, o que também acontece, ele às vezes faz questão de conhecer o sujeito. “Me preocupa a segurança dela”, afirma. Afetivamente, claro, o risco é permanente. A mulher jovem e linda pode se apaixonar por um sujeito mais másculo ou apenas mais simples do que ele, diz Márcio. “Mas eu também posso encontrar outra mulher, não posso? Ninguém está 100% seguro”, afirma.

Quantas pessoas vivem dessa maneira? Na tese de Eliane Kogut cita-se uma estatística do início dos anos 90, segundo a qual algo entre 0,5% e 3% da população seria composta de crossdressers e travestis. O intervalo é grande – e os porcentuais provavelmente não significam nada. Sabe-se que o BCC reúne no Brasil cerca de 350 associados, mas isso também não diz muito. Julga-se, ou melhor, suspeita-se que a maioria dos CDs é casada. Nos Estados Unidos, a mais antiga associação mundial de crossdressers, fundada em 1976 com o nome de Tri-Ess International (ou Sociedade para o Segundo Eu), promove festas anuais gigantescas, mas a organização não informa quantos associados tem. Se faltam estatísticas, existe alguma história. O imperador romano Heliogábalo, que reinou brevemente no século III, vestia-se de mulher publicamente. Chegou a encenar um defloramento ao se casar com um escravo. Foi morto por seus soldados. O Chevalier d’Eon é outra figura famosa no panteão da ambigüidade. Viveu no século XVIII na corte francesa, como nobre e diplomata. Fugiu para a Inglaterra depois da revolução de 1789 e lá morreu sem que se soubesse exatamente a que gênero pertencia. Houve apostas na Bolsa de Londres que terminaram com a autópsia: era homem. Recentemente, foi publicada nos Estados Unidos a biografia de Gregory Hemingway, filho de Ernest, escritor tido como o mais durão do século XX. No livro, escrito por John Hemingway (neto de Ernest), descobre-se que Gregory, além de bipolar e autodestrutivo, tinha um problema insolúvel de identidade de gênero: o mesmo homem que caçava elefantes na África e se atirava sobre as mulheres em toda parte freqüentava os bares do Estado de Montana vestido de mulher. Teve quatro casamentos, os dois últimos em meio a intensas transformações cirúrgicas que fizeram dele (quase) uma senhora.

Casos como esse de Gregory Hemingway sublinham a confusão no mundo das novas sexualidades. Crossdressers se diferenciam de travestis por não se prostituir, por transitar regularmente entre a situação de homem e mulher – os travestis ficam montados permanentemente – e, em certa medida, por ser mais contidos na modificação corporal. CDs raramente fazem implantes de silicone e cirurgias. Márcio, com seios e esculturas corporais, está no limite das duas categorias. Há, por fim, os transexuais, aqueles que se sentem mulheres aprisionadas no corpo de homens. Estes às vezes passam anos na condição de crossdressers antes de se decidir por uma operação de mudança de sexo. Eliane Kogut diz que 6% dos CDs que ela acompanhou em sua pesquisa fizeram a cirurgia e assumiram a identidade de mulher. Tudo isso, claro, é visto pela psiquiatria tradicional por uma lente rigorosa e desaprovadora. Ao contrário da homossexualidade, o travestismo ainda é considerado patologia, um transtorno de identidade de gênero. “Com o tempo, isso vai mudar”, afirma Eliane. “A homossexualidade só deixou de ser considerada doença em 1974”.

Diante de um senhor alto e corpulento, vestido com sandália branca e peruca ruiva, é difícil esconder o desconforto. Estou no apartamento de Márcia, conversando com um grupo do Brazilian Crossdressers Club. A organização foi criada há 11 anos com o objetivo de ajudar os CDs e colocá-los em contato uns com os outros. O grupo se comunica por meio do site www.bccclub.com.br. Ali eles trocam literatura, serviços e organizam um grande encontro anual, o Holliday En Femme, durante o qual passam um fim de semana inteiro vestidos de mulher. O senhor alto de peruca ruiva acabou de se integrar ao grupo, com cognome de Márcia Polari. Tímido, está vivendo as primeiras experiências de sair em público vestido de mulher. Ele é médico, casado, pai de filhos adultos. Diz que costumava montar-se apenas nos Estados Unidos, quando viajava. Comprava roupas íntimas e calçados de mulher no Wal-Mart, trancava-se no quarto do hotel – e ali passava horas imerso em fantasias. Agora é diferente. Desde que conheceu o BCC, tem se “montado” com freqüência. Seu lado feminino está exigindo mais – a ponto de ele se perguntar sobre o futuro de seu casamento. Sua mulher não sabe da vida paralela. Semanas atrás, o grupo de crossdressers contratou um profissional para maquiar a “novata” pela primeira vez. De costas para o espelho, recebeu base, batom e seus olhos foram pintados. Quando a cadeira girou e ele se viu no espelho de maquiagem, soltou um grito: “Esta sou eu!”. Aos 62 anos.

“Se existisse uma pílula que eliminasse a Márcia, eu tomaria. Seria mais simples”

Psicólogos e psicanalistas dizem que a angústia dos CDs será tanto mais grave quanto mais clandestinos eles viverem. “Quanto mais você tem a esconder, maior a angústia”, diz Eliane. A pulsão de vestir-se de mulher emerge com mais força em períodos de ansiedade e frustração, como ocorre com viciados em drogas. É o período que os CDs chamam de “urge”. Quando finalmente se vestem, sentem um prazer que é propriamente sexual, e a ansiedade se reduz. A isso, porém, segue-se um período de culpa, durante o qual tomam a decisão de “nunca mais” se travestir. Ao sentimento negativo, os CDs dão o nome de “purge”. Os períodos opostos, de entrega e negação, parecem se alternar ao longo da vida dos crossdressers. “Conheci um deles que tinha feito quatro guarda-roupas”, diz Eliane. Quando o sujeito encontra um lugar seguro para a persona feminina em sua vida – como ocorreu com Márcio –, a gangorra desacelera e a angústia decresce. A mulher de Márcio diz que ele se tornou muito mais produtivo nos últimos anos, quando Márcia passou a ter um papel importante na vida deles. O que parece difícil é livrar-se definitivamente da pulsão. Os CDs dizem que não há ex-crossdresser, ainda que médicos como Oswaldo Rodrigues relatem casos de pacientes que deixaram essa situação para trás. “O ser humano é o animal mais plástico que existe”, diz ele. “Toda compulsão é mutável”.

O site do Tri-Ess americano contém um documento eloqüente para quem deseja entender o universo dos crossdressers: os 12 direitos das mulheres de CDs. A lista contém coisas engraçadas – “Temos o direito de ser consultadas antes que usem nossas jóias e maquiagem” – e outras de teor sombrio. “Temos o direito ao corpo masculino dos nossos maridos”, diz o documento. “Nenhuma parte no casamento tem o direito de alterar o corpo sem o consentimento do outro”. Esse comentário revela um comportamento dos crossdressers que é motivo de grande ansiedade entre suas esposas: a tendência a avançar na personificação feminina, a ponto de colocar em risco o trabalho, a família e o convívio social. Márcio tinha cabelos curtos, raspava a barba e aparava as unhas quando se casou com Priscilla. Hoje, toma hormônios, se depila e montou um apartamento para seu lado mulher. Os CDs com quem conversei dizem que “testar os limites da transformação” é um clássico entre eles.

Pergunto ao casal Márcio–Priscilla onde a mudança física dele vai parar. Ele, sem hesitar, diz que já parou. Ela faz um gesto de incerteza. “As mulheres são muito importantes na vida dos CDs. Elas dão o limite”, afirma a psicanalista Eliane. Priscilla usa palavras parecidas para falar de seu casamento: “Eu me sinto a âncora dele”. A filha adolescente de Márcio vem sendo informada aos poucos da situação e, segundo ele, recebe tudo “com naturalidade”. Ela é capaz, por exemplo, de fazer piada com os seios do pai e de rir quando ele, num arroubo de moça, “precisa” comprar uma sandália exposta na vitrine do shopping. Tamanho 41. Parece grotesco? Semanas atrás, eu também acharia. Depois de conviver com Márcio e sua família, depois de conversar com seus amigos e de ouvir os psicólogos, minha opinião mudou. O sujeito é bom pai, bom marido e leva uma vida sexual da pesada. E daí? Tanto quanto eu pude perceber, ele não faz mal a ninguém. Pesa sobre seus atos, ademais, uma camada de inevitabilidade. Na primeira vez em que conversamos, Márcio me disse: “Se existisse uma pílula que acabasse com a Márcia, eu tomaria. A vida seria mais simples”. Quem duvida?


Fonte: Revista Época


Por que homens procuram travestis?

21/05/2008 16:44

Por que homens procuram travestis?

Muitos parecem precisar de uma forma atenuada de sexo com outro homem. A ambiguidade dessa relação sugere muitas outras fantasias

Ivan Martins

Daniel Wainstein
CABEÇA ABERTA
Márcia, travesti de classe média paulistana. “Os homens que saem comigo são héteros que topam tudo”

Mendes tem 37 anos, cabeça raspada e brinco na orelha direita. Pelos modos e pela aparência, o rapaz branco de família evangélica não se distingue de outros milhões de jovens paulistanos, exceto por uma particularidade importante: ele namora um travesti, Flávia. Os dois se conheceram há cinco anos no centro de São Paulo e, de lá para cá, constituem um casal. Na semana passada, sentado ao lado de Flávia na sala de um apartamento na Rua General Osório, Mendes explicava, em voz pausada, as bases da relação. “Nosso relacionamento é hétero”, afirma. Isso quer dizer que, no sexo, ele é a parte viril do casal, enquanto Flávia cumpre o papel de mulher. “Mas entre nós não existe só sexo. A gente tem amor e cuida um do outro.” Com cabelos negros e corpo esguio, Flávia ganha a vida se prostituindo nas ruas. Ele trabalha nas ruas como vendedor.

As palavras de Mendes revelam, sem explicar, um dos grandes mistérios da sexualidade moderna: a sedução exercida pelos travestis. Desde meados dos anos 70, quando despontaram nas esquinas das metrópoles brasileiras com saias minúsculas e seios exuberantes, essas criaturas híbridas conquistaram um espaço enorme no imaginário sexual do país. Todos os dias, milhares de homens se esgueiram por avenidas sombrias para comprar o prazer oferecido por seus corpos alterados. O risco envolvido nesse tipo de operação ficou claro há duas semanas, quando Ronaldo Nazário, o jogador de futebol mais famoso do mundo, transformou-se no protagonista de um escândalo que tinha como coadjuvantes três travestis do Rio de Janeiro. Ele foi com o grupo ao hotel Papillon e, durante a madrugada, desentendeu-se com um deles, Andréia Albertini. Acabaram todos na delegacia, de onde a história ganhou o mundo. A avalanche moral que desabou sobre Ronaldo a partir daí foi incapaz de responder à questão mais simples colocada pelo episódio: por que homens adultos e mesmo famosos arriscam segurança e reputação e vão atrás de travestis?

O antropólogo americano Don Kulick passou um ano vivendo com travestis em Salvador, sabe muito de seu cotidiano e mesmo de suas preferências íntimas. Mas não se arrisca a explicar quem são seus clientes. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, diz. O livro de Kulick, professor da Universidade Nova York, sairá em português no fim deste mês, pela editora Fiocruz, com o título Travestis: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil. Kulick conseguiu uma descrição razoavelmente rigorosa do que os fregueses exigem dos travestis. Durante um mês, pediu a cinco deles que registrassem o tipo de serviço prestado nas ruas. O resultado de 138 programas: em 52% dos casos os clientes queriam sodomizar, em 19% exigiam sexo oral, 18% queriam fazer aquilo que se costuma chamar de “troca-troca”, 9% pagaram para ser sodomizados e 2% para ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis”, escreve s Kulick. “Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.”

‘‘Não é irrelevante que 27% dos homens da amostragem quisessem ser penetrados pelos travestis’’
DON KULICK, antropólogo americano

A confiar apenas no que dizem os travestis, o porcentual de seus clientes que se portam como homossexual passivo é alto. “Nove em cada dez homens querem ser penetrados”, diz Flávia, a namorada de Mendes. “Se o travesti não for bem-dotado e ativo, não ganha a vida na rua.” Exagero? Talvez. Assim como as prostitutas, os travestis têm uma relação antagônica com aqueles que pagam para usar seu corpo. Muitos não suportam exercer o papel viril que se exige deles na prostituição e o fazem com grande sofrimento, porque não encontram outra forma de ganhar a vida. Vingam-se dessa situação degradante com a mesma arma que a sociedade usa para humilhá-los: questionam a hombridade do freguês e o ridicularizam.

O psiquiatra Sérgio Almeida trabalha com travestis em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e sua experiência corrobora em alguma medida a versão de Flávia. Cabe a Almeida a tarefa difícil de distinguir entre os travestis – definidos como homens que gostam de agir e sentir como mulher – e os transexuais, que se sentem mulheres aprisionadas em corpo masculino. Para estes, recomenda-se a cirurgia de troca de sexo. Para os travestis, ela equivale a uma mutilação e pode levar ao suicídio. Almeida gasta dois anos com cada paciente até decidir em que categoria ele se encaixa. “Desde 1997, fizemos 95 cirurgias e não tivemos nenhum problema”, afirma. O pós-operatório mostrou ao psiquiatra que ex-travestis são freqüentemente abandonados por seus parceiros quando perdem a anatomia masculina. E que os operados que insistem em continuar na prostituição perdem também a carteira de clientes. Algo de crucial desapareceu na cirurgia. “Não é verdade que os homens procuram travestis porque estes se parecem mulheres”, diz ele. “Eles querem o algo mais que as mulheres não têm.”

Antonio Gaudério
TRANGRESSÃO
Acima, um travesti espera clientes na noite de São Paulo. Abaixo, Andréia Albertini, travesti que levou Ronaldo à delegacia e às manchetes. Por que os homens arriscam sua honra e sua segurança nesse tipo de aventura sexual

Os próprios envolvidos têm opiniões diferentes. Um leitor anônimo de epoca.com.br enviou depoimento no qual afirma, basicamente, que os travestis são a melhor opção sexoeconômica. Diz ele: “Já saí com vários travestis. O que me atraiu foi justamente o desejo físico pelos bumbuns e seios avantajados. Ficar com uma travesti para mim é conseguir a baixo preço uma mulher de porte e formas que eu jamais conseguiria pagar ou namorar”. Márcia, travesti paulista cuja foto abre esta reportagem, repele qualquer tentativa de analisar os homens com quem sai voluntariamente. “Para mim, homens que saem com travestis são heterossexuais de cabeça aberta, que topam qualquer coisa”, afirma. Advogado, casado, pai de uma moça, diz que tem impulsos de vestir-se e agir como mulher desde criança, mas que isso nunca o impediu de ter relações normais com mulheres: “Quando saio com um homem, ele não importa. O que me interessa é reforçar minha identidade de mulher”.

O mistério em torno dos homens que procuram travestis é proporcional à ignorância que cerca os próprios travestis. Como grupo populacional, eles são escarçamente estudados: não se tem a menor idéia de quantos sejam, no mundo ou no Brasil. Os líderes das organizações de travestis estimam que haja 5 mil ou 6 mil deles no Rio de Janeiro e uma quantidade muito maior – fala-se em 30 mil – em São Paulo. Nenhuma ciência ampara essas estimativas. Sabe-se que há travestis de Porto Alegre a Manaus, inclusive em cidades pequenas. Tem-se a impressão, entre os que lidam com o assunto, que o Brasil é o líder mundial nessa categoria – e o principal exportador para os países europeus, sobretudo Itália e Espanha. “O Brasil tem a maior população mundial de travestis e o maior número de travestis per capita”, afirma Kulick. Trata-se de uma opinião bem informada, mas é apenas opinião. Líderes de organizações de travestis como Keila Simpson, presidente da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, querem que o censo inclua perguntas que permitam quantificar os diferentes grupos sexuais do país. “Como se pode dirigir políticas públicas a uma população de tamanho ignorado?”, diz.

Paulo Alvadia

A palavra-chave quando se trata de explicar a atração exercida pelos travestis parece ser ambigüidade. Eles são percebidos simultaneamente como homem e mulher, uma incongruência que mexe com as profundezas da psique humana. “O travesti mobiliza o desejo como mobiliza a repulsa”, afirma a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Outra psicanalista, Maria Rita Kehl, vê duas razões no fascínio pelos travestis. A primeira é que, por ser uma mulher com pênis, ele captura os restos das fantasias sexuais infantis. A outra está no fato de os travestis encarnarem a feminilidade de uma forma absoluta, que nenhuma mulher contemporânea aceitaria. “Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz Maria Rita. “Se alguém sabe o que é ‘ser mulher de verdade’ (uma ficção masculina), é justamente o travesti.” Os próprios travestis são taxativos ao afirmar que seus fregueses procuram neles a diferença: a mulher com falo, a fantasia, o risco. “Transgressão é essencial. O proibido atrai”, afirma Marjorie, travesti com 20 anos de experiência nas ruas, que hoje trabalha na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As coisas que se dizem sobre os homens que saem com travestis são lendas machistas.”

Paira sobre essa discussão uma palavra que os psicanalistas detestam: patologia. Sim, as pessoas têm o direito inalienável de manter relações sexuais com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo. Posto isso, cabe a pergunta: está bem de cabeça um homem casado (como parece ser a maior parte dos clientes dos travestis) que abre a porta de seu carro na porta do Jockey Club, em São Paulo, e paga R$ 40 por uma hora de sexo com um homem que parece ser mulher? Os especialistas não têm uma resposta unânime a isso.

“Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz uma psicanalista

Liberais dizem que, bolas, desejo é desejo, e não se pode explicar ou reprimir. Há que aceitar. “Entendo que os homens que só se realizam sexualmente com travestis possam estar mal resolvidos em sua orientação sexual”, diz Maria Rita Kehl. “Mas considerar que todos os que gostam de travestis são homossexuais acovardados é uma redução preconceituosa.” Na outra ponta, fala-se em sofrimento e confusão por trás dessa forma específica de prazer. “Para alguns homens é patológico”, afirma o psicanalista Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexualidade. “Muitos fazem isso num impulso de autodestruição.”

Há os incapazes de lidar com seu próprio desejo por outros homens. Há os que buscam cumprir seu “papel social” no corpo feminilizado dos travestis. Há de tudo, e nem tudo é a festa do desejo que a modernidade implicitamente recomenda. Onde está o limite? Na dor. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, com mais de 30 anos de experiência terapêutica, muitos homens que saem com travestis o procuram em estado de sofrimento. Eis o que diz a respeito a psiquiatra Carmita Helena Abdo, que coordena o Projeto de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Se as pessoas fazem sexo responsável, não estão sofrendo e não me procuram, não quero normatizar a vida de ninguém”.


Fonte: Revista Época


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Crossdressers: homens de batom

quarta-feira, 8 de outubro de 2008, 09:37

Crossdressers: homens de batom

Fernanda Borges
Do Diário OnLine

Diário OnLineFicou no passado o tempo em que vestido, salto alto e maquiagem eram acessórios exclusivos do público feminino. Os crossdressers, homens que vestem roupas do sexo oposto por satisfação pessoal, também não abrem mão das bijuterias e das longas perucas. Os CDs, como os adeptos do 'hobby' são conhecidos, são heterossexuais que possuem o fetiche de se transformar em mulher.

O termo crossdresser (vestir-se ao contrário, na tradução literal) foi importado para o Brasil em 1997, mesmo ano de criação do BCC (Brasilian Crossdresser Club), grupo cujo objetivo é reunir e dar suporte — principalmente psicológico — aos praticantes. De acordo com a presidente Kelly Neta (pseudônimo, foto), 51 anos, os CDs são homens que desejam uma identidade feminina, não significando que haja atração por pessoas do mesmo sexo. "Fazemos isso por puro fetiche, não é nada relacionado à opção sexual. No meu caso, sou hétero e muito bem casado. Porém, podem existir CDs que são homossexuais, mas isso não é regra", afirma.

O BCC possui atualmente 400 filiados, espalhados por 19 Estados brasileiros. Segundo Kelly Neta, o crossdressing é muito mais praticado do que se imagina, mas a maioria esconde o 'hobby' por conta do preconceito. "Muitos confundem a prática do crossdressing com os travestis. O que nos difere é a questão da comercialização do sexo e as alterações no corpo. Os CDs não têm nenhuma conotação sexual e não fazem modificações físicas permanentes, como silicones, uma vez que mantemos a identidade masculina", explica.

Apesar do cuidado que muitos CDs têm em preservar a identidade, alguns se produzem com peças do guarda-roupa feminino e saem às ruas sem intimidação. "Vamos a bares, restaurantes, shoppings e à praia, de biquíni e tudo mais, sempre sem invadir o espaço dos outros", explica Kelly. Para ela, mesmo com a caracterização feminina, o intuito não é se passar por mulher. "Nós temos a consciência de que não somos damas. Por isso nos vestimos apenas por entretenimento".

Os filiados ao BCC têm média de idade entre 45 e 50 anos e pertencem a diversas camadas sociais. "Têm até muita gente importante que não pode revelar a identidade por medo do preconceito e das conseqüências no meio em que vive", diz Kelly. É o caso do CD Nádia (pseudômino), 25 anos, morador de Mauá. "Todos acham que um homem que gosta de usar roupas femininas é homossexual. Esse é o meu maior medo, pois as pessoas não aceitam e confundem o fetiche com a opção sexual simplesmente por não conhecer o assunto", afirma.

No caso de Nádia, o interesse por saias e maquiagens surgiu na infância. "Eu vestia roupas da minha mãe e da minha irmã. Fazia tudo escondido. Cresci achando que era um bicho estranho, por isso tinha medo de contar para alguém".

De acordo com o BCC, Nádia é considerada um crossdresser de armário, pois não tem coragem de sair em público como mulher. Outra dificuldade para ela é assumir a opção para a namorada. "Hoje tenho um relacionamento com uma garota há quatro meses. Ela ainda não sabe, pois não sei se aceitaria. Vou conhecê-la bem primeiro, depois decido se conto", diz.

Louise (pseudônimo, foto à direita), 42 anos, de Porto Alegre (RS), também compartilha a opinião de que a Arquivo pessoal aceitação por parte do parceiro é um dos principais desafios de um crossdresser. "No momento estou solteira. Só pretendo iniciar um novo relacionamento com alguém que saiba e goste de mim como CD", afirma.

Louise também tem receio de ser reconhecida como CD, mas arrisca algumas saídas. "Aqui em Porto Alegre, mesmo nos locais GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis), existem poucas crossdressers e o pessoal ainda estranha nossa presença. Eu saio mais quando viajo para cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, pois lá existe uma diversidade maior de opções e não tenho receio de encontrar algum conhecido", explica.

Suporte emocional - De acordo com a relações públicas do BCC, Patrícia Din (pseudônimo), 53 anos, o preconceito é a barreira que impede que os CDs assumam a posição perante a sociedade. Isso gera um conflito emocional e muitas vezes o praticante precisa de ajuda. "No clube, temos uma equipe de profissionais, inclusive no ramo psicológico, que vai ajudar o CD a se aceitar e a encarar a opção com naturalidade", explica. Segundo Patrícia, o apoio da família também é fundamental. "A minha mãe sabe que sou crossdresser e aceita numa boa. Ela até já fez um vestido para mim (risos)", revela.

Mas a maioria dos CDs vive uma realidade bem diferente de Patrícia, já que nem todas as famílias conseguem aceitar o fetiche como um 'hobby' comum. Porém, existem mulheres que aprendem a lidar com a opção do parceiro. Elas são as chamadas S/Os (Supportive Opposite) — pessoas do sexo oposto que apóiam e dão suporte emocional ao CD. Nesse sentido, Kelly Neta é uma privilegiada. Sua esposa, Maria Luiza, 43 anos, acompanha o marido em todos os momentos. "Ajudo a Kelly a comprar roupas, maquiagens e tudo mais o que precisar. Encaro tudo numa boa, já que o fetiche é bacana", revela.

Apesar do clima descontraído de Maria Luiza, ela revela que no início a aceitação não foi tão fácil assim. "Tudo começou como uma palhaçada, até que chegou o momento em que ele falou sério comigo e explicou que era um desejo incontrolável. Eu não sabia o que pensar e demorou um tempo até eu digerir a idéia de que meu marido gostava de se vestir de mulher", conta.



Crossdressers: homens de batom




Crossdressers, ou CDs, são homens heterossexuais que têm o fetiche de se transformar em mulher



Fonte: Diário do Grande ABC

terça-feira, 21 de abril de 2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Nas escolas, travestis são alvo de estigma e discriminação


Nas escolas, travestis são alvo de estigma e discriminação


Enviado por Elizabete Franco Cruz* -25/5/2008-9:39


A Parada Gay tem se configurado como uma festa da diversidade que tem um papel educativo e político: chamar atenção para as diferenças ligadas à sexualidade. Aproveitando a oportunidade, proponho que façamos uma reflexão mais aprofundada a respeito de como a sociedade em geral e mais especificamente os espaços educativos como escolas, universidades, centros de convivência lidam com estas diferenças.

Tomarei aqui minha experiência nas áreas de saúde e educação para problematizar episódios cotidianos que me levam a crer que ainda temos muitos desafios. Consideremos por exemplo a questão das travestis. Como são aceitas nas escolas, nos serviços de saúde, nas famílias e locais de trabalho? Nas escolas, com freqüência, são alvo de estigma e discriminação.

Nesta oportunidade focarei apenas o contexto escolar. Muitos professores e professoras recusam-se a chamá-las pelo nome com o qual estão identificadas. Assim uma Joana que recebeu um registro de João é chamada pelo nome de João e não pelo nome de Joana que para ela a representa e com o qual constitui sua identidade.

Os/as educadores dizem ter que seguir o que é oficial (o registro e o nome na lista).Mas qual o problema de chamar a Joana e colocar presença para aquele que é João na lista? A burocracia e o legalismo mal dissimulam a não aceitação de que os indivíduos podem ter identidades que não correspondem não somente a uma certidão de nascimento como também a sua herança genética (no caso, um corpo que é nomeado como de homem e que lhe dá um pênis).

Um simples ato cotidiano, como a chamada na escola, mostra o quanto vivemos numa cultura que não dá espaço para a diferença e que calca suas compreensões sobre as pessoas nos castelos conceituais de uma natureza imutável e determinante das relações humanas.

O uso do banheiro também é emblemático desta perspectiva calcada nos determinantes biológicos.Várias escolas confrontam-se com esta questão:afinal qual banheiro a travesti vai usar? Pouco se escuta seu desejo e quando se escuta há uma dificuldade de realizá-lo, porque meninos com freqüência não a querem no seu banheiro e meninas também não a querem.Familiares e professores muitas vezes reclamam. Diretoras/es diante da questão encontram diferentes soluções. Poucos abrem um diálogo com a comunidade e a muitos optam por sugerir a utilização do banheiro da direção.

A simples existência deste "problema" na escola já mostra que a travesti não é bem vinda, que sua presença é perturbadora de determinadas ordens estabelecidas.

No entanto, temos que pensar que contextos como estes trazem conseqüências. Em um evento para jovens, uma travesti de 18 anos pediu que eu a ajudasse a preencher a ficha de entrada no hotel. Queria que eu escrevesse seu nome! O que acontece que alguém que teve acesso a escola sai da escola sem aprender a escrever o próprio nome?

A homossexualidade ficou conhecida como "o amor que não pode dizer seu nome", mas talvez tenhamos que levar a reflexão mais adiante. Ao discriminarmos a homossexualidade e todas as formas identitárias que fogem a um padrão binário, heterossexual hegemônico acabamos contribuindo para um holocausto cotidiano que tenta apagar a existência de toda e qualquer diferença. Mais do que um amor/desejo que não pode dizer seu nome, encontramos sujeitos que não podem dizer seus nomes.Nomes que lhes dão sentido de SER.

Talvez seja preciso que examinemos com mais cuidado episódios tomados como normais no cotidiano. Há uma expulsão silenciosa das diferenças na escola e as travestis estão entre aquelas pessoas que ao não encontrarem seu lugar vão saindo de um espaço que poderia justamente revolucionar o senso comum e acolhê-las e dialogar com sua diferença. Não localizei um índice de analfabetismo/escolaridade entre travestis, mas arrisco dizer que permanecer na escola para muitas deve ter sido um ato heróico.

Claro, a questão não está somente na escola e é uma questão da cultura, mas a escola tem um papel na transformação dos valores ligados às relações de gênero. As pessoas podem ser muito mais do que os livros de biologia e religião nos ensinaram.
É uma pena que todas as cores do arco íris não iluminem todas as almas a perceber que a beleza e a graça dos humanos justamente está na sua pluralidade. Enquanto isto não acontece veremos episódios cotidianos de injustiça, estigma e discriminação em última instância a violação de direitos humanos efetivada por aqueles/as que se consideram mais humanos do que aqueles que são diferentes de si.

Enquanto isso vamos fazer a caminhada com gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, trans-gêneros, qüeers, heterossexuais, aqueles que não querem se dar nomes e quem mais quiser se juntar ao grupo daqueles que acreditam que é possível inventar um mundo mais plural,digno e humano.

*Elizabete Franco Cruz é psicóloga, doutora em educação e professora da Escola de Artes Ciências e Humanidades da USP


Fonte: O Globo


sábado, 18 de abril de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

Tribos: Drags

BENVEGNU, Marcela . Tribos: Drags. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 07 dez. 2008.

Matéria em formato PDF disponível para download nos links abaixo:

PARTE 1

PARTE 2

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Câmeras alteram rotina das travestis Com receio do videomonitoramento da PM, clientes preferem os becos

Câmeras alteram rotina das travestis
Com receio do videomonitoramento da PM, clientes preferem os becos


Repórter
Atualizada: 11/08/2008 - 05h09min

A instalação de câmeras para videomonitoramento na área próxima ao cruzamento das avenidas João Naves de Ávila e Cesário Alvim, desde o início de julho, mudou a rotina das travestis que se prostituem na região central. Elas afirmam que o “olhar eletrônico” afugentou os clientes, principalmente os casados.

As travestis continuam fazendo ponto no cruzamento, mas tornaram mais discreta a abordagem aos clientes, tentando escapar do zoom das câmeras que flagram, ininterruptamente e em alta definição, o movimento na região. “A gente dá um toque, vai para a rua de baixo”, disse a travesti Cristina. “Falo para eles pararem no beco, lá não tem problema”, afirmou Raquel, referindo-se à área das ruas Agenor Paes, José Camin, Resende e a travessa Cascalho Rico.

Os clientes preferem não parar o carro nas proximidades da câmera e pedem que a travesti siga para outra rua. Nos becos próximos à João Naves, longe das câmeras, a travesti Cristina diz que seus clientes ficam intimidados, mas que, para elas, não há problemas. “Não faço nada errado, não tenho por que ter medo.”

Líder informal do grupo, Pamela estima que haja cerca de 90 travestis trabalhando nas ruas de Uberlândia. “Conheço todas. Sempre ajudo, quando alguma adoece sou eu quem leva ao médico”, afirmou. Ela diz que o videomonitoramento atrapalha os negócios de muitas colegas, mas não o dela, que também faz ponto na região da avenida João Naves. “Mudou bastante depois das câmeras, a maioria dos clientes tem medo. O movimento caiu uns 50%. Para mim até que não, porque trabalho há mais de 20 anos e atendo gente importante, vereador, deputado.”

A Polícia Militar confirma que há migração das travestis para áreas distantes do alcance das câmeras. Moradores das ruas nas imediações da João Naves também confirmam o aumento recente no movimento de veículos no início da madrugada. “Só pára carrão”, disse um morador, que preferiu não ser identificado.


Polícia faz reunião e proíbe nudez

Cenas antes mais corriqueiras de travestis trabalhando praticamente nus estão sendo fiscalizadas pelas câmeras. “A gente teve problemas com os vizinhos”, disse uma das travestis. O comando do batalhão da Polícia Militar que faz o policiamento na região, organizou na semana passada uma reunião com um grupo de travestis, para anunciar a adoção de “tolerância zero” em relação à nudez em via pública.

“O equipamento de monitoramento é um reforço à nossa atuação. As imagens já dizem se está havendo algum delito. Chegamos a prender pessoas que estavam em via pública mantendo relações sexuais. Eles foram presos em flagrante”, afirmou o comandante do 17º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Dilmar Crovato.

Ele afirma que a vigilância eletrônica também é um fator de segurança para as travestis que ficam em áreas próximas aos pontos de monitoramento. “Há momentos em que elas também se tornam vítimas de agressão, roubo e denúncia caluniosa”, afirmou Crovato.

A travesti Pamela participou da reunião com a Polícia Militar e garantiu que a determinação de proibir a nudez está sendo acatada. “Fizemos o acordo e não estamos deixando ninguém tirar a roupa. Quem vem de outra cidade e tira a roupa nós mandamos embora”, afirmou.

Manoel Serafim

Mudança de ponto foi uma das formas escolhidas para não perder clientes


Frases

“O perfil dos clientes é eclético. Vai do gari ao advogado. O contato na rua é um fetiche para os homens. Eles se sentem atraídos.”
Cristina

“Tem coisas que acontecem na noite, que só quem vive na noite é que entende.”
Raquel

“A maioria dos clientes procura as travestis para serem passivos na relação sexual. Eles escolhem a gente pelo ‘dote’.”
Cristina

“Algumas quase não vêem a luz do dia, outras trabalham como costureiras e cabeleireiras.”
Pámela

“Antigamente, na década de 90, a gente levava muita pedrada, era uma confusão. Agora isso está melhor.”
Pámela

“Só pára carrão.”
Morador da João Naves


Fonte: Correio de Uberlândia

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ronaldo se envolve em confusão com 3 travestis em motel

DENÚNCIA

Ronaldo se envolve em confusão com 3 travestis em motel

Folhapress
Terça-feira - 29/04/2008 - 03h01
Reprodução

Travesti Carla, em delegacia

Em recuperação no Rio de Janeiro, depois da delicada cirurgia no joelho esquerdo, o atacante Ronaldo, 31 anos, do Milan, terminou a noite de domingo numa delegacia da cidade após se envolver em confusão com três travestis. O jogador e um dos travestis foram encaminhados à delegacia pela Polícia Militar, depois de uma discussão em um motel.

Em entrevista na 16ª DP (Barra da Tijuca), o delegado-titular Carlos Augusto Nogueira contou a imprensa a versão de Ronaldo para o incidente, dada em depoimento. Segundo ele, o jogador se disse vítima de uma tentativa de extorsão do travesti André Luiz Ribeiro Albertino, que é conhecido como Andréia Albertine.

Albertino acusa o atacante de calote em programa com outros dois travestis e de envolvimento com drogas. Conforme Nogueira, Ronaldo saiu de boate na Barra, onde foi festejar a vitória do Flamengo. Ele teria pego uma prostituta entre as 4h e as 5h, que teria chamado mais duas amigas para ir ao motel Papillon, no mesmo bairro. Quando o atleta descobriu que todos eram travestis, desistiu do programa.

Eles ainda teriam oferecido drogas ao atleta, que não aceitou, segundo a versão dada ao delegado. Albertino teria tentado chantagear Ronaldo, pedindo R$ 50 mil para não divulgar à imprensa do País que o Fenômeno havia saído com três travestis.

Escolhido como melhor jogador do mundo pela Fifa em 1996, 97 e 02 e recordista de gols em Copas (15 tentos em três edições), o Fenômeno teria pago R$ 1 mil aos outros dois, mas Albertino não teria aceitado receber essa quantia. "Quando ele soube que eram travestis, Ronaldo disse que os respeitava, mas que não os queria. Falaram para usar um pouco de cocaína que não iria nem perceber. Mas ele não quis", afirmou o delegado.

Albertino gravou um vídeo no celular em que aparece Ronaldo, com a camisa do Flamengo que e havia usado na tarde de domingo para ir ao jogo com o Botafogo. No vídeo, que foi colocado no site YouTube, dá para ouvir uma voz, supostamente a de Albertino, dizendo que é para mostrar que "você é você mesmo".

DOCUMENTOS - Albertino também exibiu os documentos do carro de Ronaldo, que, revela o travesti, ficaram com ele como garantia de pagamento do atleta. Ronaldo negou. O delegado afirma acreditar que Ronaldo tenha sido vítima de golpe e que acha difícil haver alguma conseqüência para o jogador, mas que ainda precisa investigar todas as versões. Ronaldo deverá ser chamado para depor hoje. "É um fato no máximo imoral, mas não recrimino", disse Nogueira.


Fonte: Folha da Região


Cross Dresser Shot, Killed After Argument


Police: Cross Dresser Shot, Killed After Argument
Witnesses Said 17-Year-Old Had Words With Two Men


POSTED: Friday, February 22, 2008
UPDATED: 5:44 pm EST February 22, 2008

Simmie Williams

FORT LAUDERDALE, Fla. -- A 17-year-old cross dresser was shot and killed early Friday morning after arguing with two men seen running from the area, according to Fort Lauderdale Police.

Sgt. Kathy Collins said that Simmie Lewis Williams Jr. was dressed as a woman and was standing at the corner of 10th Avenue and Sistrunk Boulevard at 12:45 a.m. Friday.

"Witnesses said he was in a verbal argument with two men and then they heard several shots being fired and the men took off running," said Collins.

Williams was transported to Broward General Medical Center where he later died.

Police are hoping more witnesses will come forward with information to help solve the case. Anyone with information should call Fort Lauderdale Detective Mark Breen at 954-828-5708 or CrimeStoppers at 954-493-TIPS.


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Fonte: JustNews

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Homens com alma de Madonna


Sabado, 7 de Junho 2008 - 20h1

Homens com alma de Madonna

Simei Morais

MATHEUS URENHA Homens com alma de Madonna
MICKELY MOON Para o show de “Beyonce”, espera pelo cabeleireiro

Depois de toda a maquiagem pronta, virou o rosto com as pestanas enormes. Eram 15 cílios postiços colados, em cada lado. Aquele momento parecia o ponto de transformação em que o franzino Leandro Rodrigues, 22, passava à sedutora Sandyra Fraw, a drag queen que ficou famosa por ter ficado pendurada no semáforo, na parada gay do ano passado, em Ribeirão Preto.
“Ai, eu me desequilibrei em cima do trio elétrico e segurei no semáforo. De repente, o carro foi e eu fiquei”, justifica, enquanto arruma os peitos feitos de arroz sob o sutiã tamanho P.


Levou uma hora e meia para se “montar”. Nesse tempo, compartilhou o camarim da boate GLS Slave com dois go-go boys que não paravam de se olhar no espelho, flexionando os braços bombados. Uma go-go girl, um travesti e a drag Mickely Moon também dividiram o espaço. Mas só o espaço. Porque top drag, classificação de Sandyra, não sai na mesma foto com outra drag.
“Há muita disputa de ‘strass’ entre as tops”, diz Albner Valentino, 33, que há nove anos dá vida à drag queen “clássica” Susi Ferrari.


A diferença entre as tops e as clássicas é que as primeiras são mais sensuais e se restringem a usar o salto alto no meio gay. “A clássica faz uma linha mais palhaça, sem esconder os músculos de homem”, explica Valentino, que fatura R$ 500 a hora em eventos de público heterossexual, com sua caricatural Susi.


A semelhança entre os tipos, diz Valentino, é a de vestir-se de mulher e fazer dublagem de música.


Top ou clássica, o fato é que o cenário está se ampliando. Não se sabe quantas drags existem em Ribeirão, mas há novas “caras” por aí. Assim que Sandyra sai do camarim e desfila no meio da boate, três drags juvenis surgem do escuro e badalam a loira. “Aaaaaahhh, maravilhoooooosa”, dizem, em altos decibéis. O mercado das drags foi além das fronteiras do que se chama de “gueto”, declara a antropóloga Ana Vencato, de São Paulo.


Elas fazem sucesso porque brincam com o imaginário social, aponta. “As drags desafiam os valores institutídos, questionam o significado da fama, do poder”, comenta. Não é difícil Susi, com uma voz mais adocicada, falar à platéia masculina que não consegue namorar. “Quando eles falam ‘eu quero, eu quero’, eu respondo ‘o problema é quando eu digo agora é minha vez’”, brinca Valentino, com voz de machão. Tops e clássicas brincam também com personalidades como Madonna, a inspiração máxima do meio. “Tudo é poder, glamour”, diz Sandyra.


No dia em que flagramos o “nascimento” de Sandyra, Mickely Moon, personagem de Danilo Certório, 22, estava “semipronta” para fazer o show dublando a americana Beyonce. Duas horas depois, ela dançaria com direito a muitas rodadas de cabelo. Top que é top, “dá força na peruca”.


‘Atenção, people: drag queen não é travesti’


Há muita diferença entre o mundo das drags (exagero, em inglês), e dos travestis, alertam as drags. Há gay que se veste de drag, mas não é impossível encontrar um pai de família que sobe nas tamancas para fazer um show.


“As drags são artistas performáticos, e não têm a mesma interferência corporal que os travestis”, diferencia a antropóloga Ana Vencato.


Para a transformação, eles gastam até duas horas, investem em perucas (a alma das drags), cílios postiços, saltos de no mínimo dez centímetros e muita base para o rosto.


“Entro nas lojas e peço para experimentar as roupas e os sapatos. Onde não me conhecem, os vendedores se divertem”, conta Leandro Rodrigues, “dono” da Sandyra.


Albner Valentino, que faz a Susi Ferrari, faz questão de mostrar que é homem para o público. Fala com voz normal e até mostra os peitos de espuma para quem flana na dúvida.


“Já fiz isso para senhorinhas e algumas crianças, quando elas vêm e falam ‘tio, meu pai falou que você é homem’. Eu digo ‘sim, eu sou homem vestido de palhaço. Depois vou para casa e tiro essa fantasia”, relata.



Fonte: Jornal A Cidade

O "T" da sigla LGBT

G, L E O QUÊ?!

O "T" da sigla LGBT


Paulo Mantello
Domingo - 02/11/2008 - 03h01

Paulo Mantello é jornalista, redator publicitário e psicólogo. Escreve neste espaço, aos domingos, como colaborador da Folha da Região

Araçatuba - Costumo comparar a travesti a uma ilha, só que em vez de estar cercada de água por todos os lados, está cercada pela violência. (Janaína)

Dá pra ficar bege, passado, com a salada de rótulos que o “T” da sigla LGBT engloba. E onde há falta de informação, reina o preconceito. Oficialmente, o T representa Travestis, Transexuais e Transgêneros. O quê?! Apesar de até bastante difundidos, os termos ainda geram dúvidas, principalmente este tal de transgêneros. Tentemos explicá-los.

Transgêneros é o termo mais abrangente para representar o T. Refere-se tanto a travestis quanto a transexuais. Trata-se geralmente de um homem no sentido fisiológico, que se relaciona com o mundo como mulher. Transexuais são as pessoas que acreditam ter nascido com o sexo errado. São elas que geralmente procuram a mudança de sexo. Os travestis podem ser tanto homem quanto mulher que simplesmente vestem roupas e usam acessórios característicos do sexo oposto.

Mas a gente ouve falar outros termos também. Transformista, por exemplo, é o mesmo que travesti. Este último acaba sendo usado mais no caso em que o indivíduo se traveste para prostituição. Um transformista apenas se veste com roupas do gênero oposto para fazer shows.

E os tais crossdressers? Bom, estes são sujeitos que vestem roupas do sexo oposto porque isso lhes dá prazer. Normalmente, usam peças íntimas do outro sexo e fazem isso em ambiente reservado. São também chamados de "CDs". Então aqueles caras que aparecem aos domingos no "Programa Sílvio Santos" são transformistas. Um outro termo utilizado é drag queen (drag king na versão feminina). Pessoas que se fantasiam, muitas vezes de maneira espalhafatosa e sem esconder seu sexo biológico. Seguindo estilo cômico, você já pode ter encontrado uma animando até a festa de aniversário da sua avó.

Quero falar de mais dois termos antes de mencionar a Janaína. Também existem o intersexual e o andrógino. Espero ter abrangido todos. Intersexual é a pessoa que nasceu fisicamente entre (inter) o sexo masculino e o feminino. Tem os dois órgãos sexuais desenvolvidos ou um predominando. O termo é preferível ao estigmatizado hermafrodita. Já o andrógino é o indivíduo que tem características físicas e comportamentais de ambos os sexos.

Janaína foi homenageada no Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania de Homossexuais “Brasil sem Homofobia” do Governo Federal. Nascida Jaime César Dutra Sampaio, um cearense que se assumiu travesti e tornou-se exemplo de luta contra a violência sofrida por estas pessoas vistas como “bagaceiras”, “perigosas”, e, segundo ela, muitas vezes expulsas das casas paternas e jogadas à prostituição ainda na adolescência.

O “Brasil sem Homofobia” pode realmente ajudar a tornar o País mais tolerante, justo e igualitário ao buscar combater a discriminação por orientação sexual. Discriminação que também não deve ocorrer por raça, etnia, idade, credo religioso ou opinião política. Me deixa!, como diria a popular drag paulistana Alma Smith.


Fonte: Folha da Região


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sexualidade: Você já ouviu falar em 'crossdresser'?

Quinta-feira - 02/10/2008 - 03h01

Sexualidade: Você já ouviu falar em 'crossdresser'?


Márcia Atik

Márcia Atik é psicóloga e terapeuta sexual; escreve quinzenalmente, às quintas-feiras, neste espaço, como colaboradora da Folha da Região.

Recentemente, li algumas reportagens a respeito do tema "crossdresser" e fiquei instigada a comentar o assunto. A diversidade sexual e o desejo, em tempos do politicamente correto, fez com que alguns assuntos fossem colocados na prateleira dos proibidos, recheados de preconceito e tabus.

Vale a pena começar a nossa conversa conceituando "crossdresser", isto é, pessoa que veste roupas usualmente próprias do sexo oposto, sem que essa prática interfira necessariamente na sua orientação sexual.

Ela pode ser heterossexual, bissexual ou homossexual. Normalmente, não utilizam hormônios nem cirurgias plásticas para se assemelharem ao sexo oposto, o que os distingue dos travestis e dos transgêneros, pois no cotidiano portam-se segundo seu sexo biológico.

Mas como não há mentira que dure para sempre, principalmente quando mentimos para nós mesmos, e só prestarmos atenção quando temos coragem de nos ver lá no escurinho da alma e perceber que nas entrelinhas surgem sensações de espanto e desconforto quando nos deparamos desejando coisas e pessoas que se encontram fora do "script".

Essa é sempre a primeira reação de quem é "crossdresser", e isso ficou muito claro nos bate papos que tive a chance de ter com esse público.

Não raro, ocorre uma tentativa de abortar sentimentos e desejos surpreendentes, assim como todos nós, que desqualificamos abandonarmos ou agredirmos verbal ou fisicamente aquilo que meramente não compreendemos na medida em que somos fruto do meio, e o meio - por mais que lutemos - tem uma força enorme nas nossas vidas.

A convivência no espaço cibernético é a grande porta aberta para que essa experiência seja dividida, ampliada e, até certo ponto, acolhe esse desejo em muitos casos ainda não compreendidos.

Estudos apontam que mais de 90% dos casos de "crossdressers" são de homens heterossexuais.

Em todas as histórias confidenciadas, a diversidade, os aspectos pessoais, individuais estão presentes, sendo o ponto em comum as calcinhas de irmãs ou mães esquecidas no banheiro, é daí que parte a primeira experiência em usar as roupas femininas e perceber o prazer que isso dá.

Essas práticas sexuais com escolha de objetos sexuais não tão comuns para estimular o desejo é uma forma de expressão da sexualidade, calcada em repressões infantis, que persistem na vida adulta.

A prevalência desses transtornos tem poucos dados e nem é estatisticamente computada, pois geram uma grande angústia pessoal.

Além disso, as pessoas escondem ou apenas procuram ajuda pressionadas pela família.

Há estudos que colocam qualquer transtorno de preferência sexual no grupo de transtornos obsessivos compulsivos, uma vez que vivenciada a situação e realizada a fantasia, obtém o alívio da ansiedade.

Vale uma reflexão sobre o papel das roupas na nossa psique, pois as roupas ocupam uma posição fronteiriça, tanto protege o espaço íntimo como nos revela e abre para o espaço relacional.

As roupas são uma tela na qual dia após dia inscrevem-se nossos estados de espírito, sonhos, dores, alegrias e sofrimentos.

Não tenho dúvida em afirmar que as histórias ligadas à infância ilustram alguns elementos em jogo quando os pais escolhem a roupa dos filhos. A criança é vestida pela mãe.

Por meio da roupa, os pais imprimem sua marca no corpo do filho, modelando-o inconscientemente segundo seu desejo. Para Freud, saber algo sobre o adulto atual deveria ser buscado na criança que o habita, já que esta o constitui.

O fato é que a intolerância com que o mundo lida com as diversidades sexuais é proporcional à intolerância que reservamos aos nossos desejos quando esses não correspondem à imagem que fazemos da nossa vida.

Na teoria, a liberdade é um sentimento que todos nós perseguimos, mas na prática só conseguimos quando temos coragem de viver em harmonia com o que sentimos, pois quando foge do padrão somos invadidos por um vendaval de culpas, sentindo-nos imorais ou doentes.

Imoral é a sociedade que não valoriza o afeto e o desejo na construção de uma relação afetiva.

Compreender essa diversidade significa exercer a sexualidade com respeito pela própria natureza e pela dos outros.


Fonte: Folha da Região


sexta-feira, 6 de março de 2009

Brasileiro é preso por explorar travesti na Itália

03 de abril, 2008 - 08h38 GMT (05h38 Brasília)


Brasileiro é preso por explorar travesti na Itália

Assimina Vlahou
De Roma para a BBC Brasil


A polícia italiana prendeu nesta semana o brasileiro Luiz Soares Marcos, de 39 anos, acusado de explorar um travesti, também brasileiro, cujo nome não foi divulgado.
O travesti, que estava ilegalmente no país, fazia ponto entre as cidades de Pisa e Follonica, na região central da Itália. De acordo com a polícia, ele entregava até 10 mil euros por mês (cerca de R$ 25 mil reais) a Luiz Soares Marcos.

“Os lucros eram relevantes mas ele dava tudo para Soares porque tinha que pagar cerca de 15 mil euros só por ter sido trazido para a Itália”, disse à BBC Brasil o tenente Ângelo Murgia, da delegacia de Viareggio, cidade próxima de Pisa, que coordenou a investigação.

Luiz Soares, que estava de forma regular no país, teria trazido o rapaz do Brasil, através da Hungria em 2006, com promessa de arranjar trabalho na Itália.

Depois de um ano de exploração, contudo, ele resolveu denunciar o caso para a polícia, que agora está investigando para descobrir se Luiz Soares Marcos agia sozinho ou se fazia parte de uma rede de prostituição mais ampla, envolvendo italianos e brasileiros.

“Soares tinha antecedentes penais por envolvimento com drogas e prostituição”, informou o tenente.

Colaboração

O travesti brasileiro resolveu colaborar com a polícia fornecendo informações que podem ajudar na segunda parte das investigações.

A delegacia de Viareggio informou que não há dados estatísticos sobre o envolvimento de brasileiros com prostituição na região.

Mas segundo o tenente Murgia, há muitos casos ente Viareggio e Torre del Lago, uma região turística, próxima ao mar, com muitos bares e boates freqüentados principalmente por homossexuais.

“Há numerosos casos, principalmente envolvendo travestis brasileiros nesta área, mas houve também muitos casos de prostituição de mulheres. É só ver os anúncios nos jornais e em alguns sites na internet para entender o movimento”, informou Murgia.

A maioria não tem permissão para entrar no país, segundo o policial. Eles chegam de forma clandestina, sob ameaça das pessoas que os exploram, sem conhecer ninguém nem falar a língua do país. Acabam com medo de denunciar a exploração à polícia e serem presos ou expulsos.

Fonte: BBC Brasil

Homens se travestem em ritual para deusa na Índia; assista

25 de março, 2008 - 17h05 GMT (14h05 Brasília)


Homens se travestem em ritual para deusa na Índia; assista


Centenas de homens travestidos de mulher participam de um ritual religioso único em Kerala, na Índia. O objetivo da curiosa cerimônia é realizar os desejos dos devotos.
Eles visitam o templo da deusa Kottankulangara em procissão, com velas acesas e vestindo roupas femininas que incluem saris e um tradicional robe local chamado settu mundu.

Carregar uma lanterna com cinco velas montadas sobre um pedaço de madeira também faz parte da tradição. Elas são usadas para acender as outras velas do templo.


Assista à reportagem

A tradição de se vestir de mulher teria começado com um grupo de pastores que costumava imitar meninas tímidas e oferecer flores e cocos para a entidade. Um dos rapazes teria tido uma visão da deusa e, então, construído um templo aberto.

Fonte: BBC Brasil

Polícia italiana prende travestis brasileiros em 'Operação Bicha'

08 de fevereiro, 2008 - 18h32 GMT (16h32 Brasília)



Polícia italiana prende travestis brasileiros em 'Operação Bicha'

Guilherme Aquino
De Milão para a BBC Brasil



A polícia italiana prendeu quatro travestis brasileiros nesta sexta-feira em Brescia, no norte do país, acusados de contrabando, exploração de prostituição, tráfico de drogas e imigração ilegal.
Um italiano também foi preso, e há três travestis brasileitros foragidos.

De acordo com a polícia italiana, as investigações, que receberam o nome "Operazione Bischa" (Operação Bicha), vinham sendo realizadas havia dois anos e contavam com o apoio da polícia brasileira por meio da Interpol.

Um dos policiais que participou da ação disse que o nome da operação é uma referência à forma com que "as cafetinas" se referiam aos travestis supostamente explorados.

Hormônios

Durante a batida policial, um dos travestis presos foi flagrado com 270 caixas de hormônios femininos, que têm importação e venda controladas, contrabandeados do Brasil.


Segundo a polícia, o grupo também aliciava outros travestis em várias cidades brasileiras, incluindo Belém do Pará, e eles chegavam à Itália "devendo" pelo menos 15 mil euros ao grupo.

"As cafetinas eram travestis que conseguiram se emancipar, viraram empresárias de si próprias e depois começaram a explorar outros travestis", disse à BBC Brasil o chefe da operação policial, Carmine Grassi. "Elas controlavam tudo."

Segundo Grassi, a cidade e os seus arredores tinham sido divididos em 15 áreas pelo grupo, e a disputa territorial havia provocado recentemente confrontos com uma quadrilha de albaneses.

Cerca de 100 pessoas foram indiciadas como resultado da operação, a maioria italianos. Muitos deles são proprietários de apartamentos alugados ao chefes do grupo para uso como local de programa ou alojamento.


Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 5 de março de 2009

Homem que era mulher anuncia estar grávido

Atualizado às: 27 de março, 2008 - 08h44 GMT (05h44 Brasília)


Homem que era mulher anuncia estar grávido





O transexual americano Thomas Beatie anunciou estar grávido de uma menina e deve dar à luz em julho deste ano, apesar da oposição da classe médica, de parentes e amigos.
Em depoimento prestado à revista dirigida a homossexuais The Advocate, Beatie, que nasceu mulher, mas trocou de sexo há oito anos, conta que sua mulher de dez anos, Nancy, sofreu uma histerectomia - retirada do útero - no passado e, quando o casal decidiu iniciar uma família, coube a ele engravidar.

"Querer ter um filho biológico não é um desejo feminino ou masculino, é um desejo humano”, disse Beatie, acrescentando que, quando o casal decidiu ter um filho, ele parou de tomar suas doses regulares de testosterona e voltou a ovular naturalmente, não sendo necessário o uso de nenhuma droga para aumentar a fertilidade.

"“Eu sou um transexual, legalmente um homem, e legalmente casado com Nancy", diz ele na revista. Conto com todos os direitos federais de um casamento”.

Quando trocou de sexo, Beatie se submeteu a uma mastectomia - teve seus seios retirados - e iniciou uma terapia com hormônios masculinos.

"Mas mantive meus direitos reprodutivos", diz ele, esclarecendo que a sua mudança de sexo não incluiu nenhuma modificação dos seus órgãos sexuais femininos.

Rejeição

Beatie conta que o casal enfrentou rejeição e chegou a ser recusado por médicos, quando foi procurar inseminação artificial.

“O primeiro médico que procuramos era um endocrinologista especializado em reprodução. Ele ficou chocado com a situação e pediu que eu raspasse os pelos faciais. Depois de uma consulta de US$ 300 ele, relutantemente, fez meus exames médicos”, diz ele.

O médico ainda ordenou que o casal fosse examinado pelos psiquiatras da clínica para avaliar se eles tinham “condições psicológicas” de ter um filho.

Mas, segundo Beatie, poucos meses e alguns milhares de dólares depois, o médico suspendeu o tratamento afirmando que ele e seus funcionários se sentiam desconfortáveis por tratar alguém como ele.

“Médicos nos discriminaram, nos mandado embora por causa de crenças religiosas. Profissionais de saúde se recusaram a me chamar por um pronome masculino ou reconhecer Nancy como minha esposa. Recepcionistas riram da gente”, afirma.

Ao todo, diz ele, nove médicos foram envolvidos no processo, até que eles conseguiram acesso a um banco de esperma. Mas tiveram que optar pela inseminação caseira.

Quando engravidou pela primeira vez, foi uma gravidez ectópica (quando o embrião se fixa fora da cavidade uterina) de trigêmeos, que fez com que ele perdesse os embriões e uma de suas trompas.

“Quando meu irmão soube disso, disse ‘é uma coisa boa isso ter acontecido. Quem sabe que tipo de monstro teria sido?’.” A família de Nancy sequer sabia que Beatie é um transexual.

Segundo Thomas, há até pouco tempo, os vizinhos na pequena comunidade de Oregon consideravam ele e Nancy um casal normal, trabalhador e apaixonado, até que eles decidiram ter o primeiro filho.

Além da comunidade médica local, poucos sabem que ele está grávido de cinco meses, mas ele afirma que está se sentindo “incrível”.

“Apesar de minha barriga estar crescendo com uma nova vida dentro de mim, estou estável e confiante sendo o homem que sou. De forma técnica, me vejo como minha própria ‘mãe de aluguel’, apesar de que minha identidade como homem é constante. Para Nancy, sou o marido dela carregando nosso filho.”

Fonte: BBC Brasil